Ela acordou com o despertador tocando Norah Jones e, como sempre, antes que terminasse o primeiro verso, colocou soneca. Virou para o lado esquerdo e não acordou. Como sempre. Norah insistiu, em dez minutos cantou o mesmo verso. Sem ao menos abrir os olhos, ela apertou o botãozinho redondo do meio do celular e continuou dormindo. Norah tocava insistentemente, eram os dez minutos mais rápidos da história. Entre um verso e outro de Norah ela voa de avião, escova os dentes com xampú ante-caspa que tinha gosto de menta e sentia a brisa do mar do Caribe nos cabelos. Virou para o lado direito e percebeu que os ombros estavam descobertos. Cobriu-os com o lençol vermelho e afundou mais seu rosto no travesseiro de fronha verde claro. Norah cantou para ela num jardim maravilhosamente florido, onde ela dava aula de espanhol para cinco pessoas e curiosamente a música da aula era a de Norah, ela ficou confusa, mas continuou dando sua aula, como se nada estivesse errado, e os alunos pareciam não notar que a música era em outro idioma. Passou um avião e ela descobriu tudo sobre o segredo do piano de Norah. Havia uma bandeira da Rússia desenhada na barriga do avião e isso era o sinal de que ela teria que jogar os lençóis vermelhos nos locais corretos para acertar as lâmpadas que tocavam luzes quando Norah cantava no palco. Mas ela não titubeou, pulou sobre o palco e avisou a Norah, em espanhol, que tudo estava acabado. Em espanhol era mais seguro, porque nem todos ali entendiam o idioma. Agradeceu os aplausos e entrou para o lado errado da coxia, ela não costumava errar. Ela era muito inteligente e resolveu sair outra vez para agradecer as flores e desta vez sair pelo lado direito. Mas Norah continuava cantando, mesmo a peça tendo acabado. Ela achou aquilo natural e desceu para curtir o show. Desceu do palco e ficou deitada no chão porque era mais aconchegante. Se cobriu de novo porque estava com os ombros descobertos, o que costumava dar um pouco de frio tão cedo. Norah não parava de cantar o mesmo verso. Mas aquilo tudo era normal nos shows de forró. O único problema era que ela não estava conseguindo dançar deitada, e de olhos fechados porque eles não queriam abrir. Disse para o rapaz esperar um pouco que ela já viria dançar com ele. Abriu os olhos e viu o relógio laranja na segunda prateleira da estante branca. Eram 20 para às 8 da manhã. Ela sorriu. Tirou o celular debaixo do travesseiro e desligou o soneca no botãozinho direito, e lembrou que era terça. O dia seria bom!
Um comentário:
E a irmã chegou dizendo baixinho: "Vc não acordar, não?", e ela disse: "Não grita, não grita!"
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