sexta-feira, 25 de março de 2011

O cheiro do tempo

Era assim: ela reforçava o perfume e lavava o rosto só com água e trocava de roupa, porque não dava tempo de tomar banho de verdade. Trocava só a roupa então, outra roupa, completamente diferente... se maquiava, usava com muito rimel, sempre com muito rimel, outra roupa, outra cara, outra pessoa. Era assim: ela convidava as pessoas para irem também, e ninguém nunca aceitava, se despedia das pessoas, entrava no carro e colocava música. Era assim: ela sempre corria um pouco para chegar a tempo. E sempre chegava um pouquinho depois do tempo, mas sempre dava certo. Ela entrava e se encontrava com alguém querido. Era assim... ela dançava. Dançava como se não tivesse joelhos ruins e pés cansados. Ela dançava. Dançava como se não houvesse nada melhor no mundo. Era assim... Até que foi diferente. E um dia ela se deixou abater por uma lufada de brisa soprada de vento cheiroso e acolhedor, e foi um momento diferente do que era sempre. Ela tirou os óculos, deitou em seu ombro e dormiu dançando. Embriagada por aquele perfume que parecia lhe ninar em pleno passo trocado. Era assim fluido, assim contínuo e harmonioso. Era assim... como devem ser os grandes momentos. E ela perdeu o tempo. Era assim sempre, ela perdia o tempo. Mas dessa vez lhe pareceu que era possível que houvessem passado ali dias, anos, dançando ao som daquela brisa de vento cheiroso. Como se fosse possível que o tempo houvesse parado! Ela acordou e percebeu que era tudo real. Ela disse que seu nome era Alice. O cheiro foi embora, flutuando na brisa que lhe havia tirado do chão e não a deixava voltar.