Ela estava caminhando entre as flores como de costume. E como de costume se distraía demais pensando na diferença entre o azul e o vermelho e as reações químicas que acontecem dentro das folhas que fazem a fotossíntese e que transformam tudo que respiramos. Como de costume ela não concluía nada sobre coisa alguma, e seguia pensando sobre as mitocôndrias e as borboletas. A liberdade das borboletas é incrível - ela pensava. Ela, como de costume, pensa demais. Caminhando por alí, em meio a tantas flores ela achou um balanço quebrado, sentou-se nele mesmo assim, e balançou só um pouquinho para não acabar de arrebentar a corda. E foi bom. E ela, como de costume, tirou uma corda que levava no bolso e concertou o balanço. Ela tem essa terrível mania de concertar as coisas quebradas. Deve ser uma síndrome, deve ser um antídoto. Como de costume ela se distraiu. E quando se deu conta estava focada no elefante azul que vinha caminhando lentamente. Ela sorriu para o elefante, e lhe deu bom dia. Como de costume, o elefante acenou e sorriu, sem dizer nada. Mas ela entendeu que o tamanho do elefante é o problema. É incômodo. O elefante incomoda muita gente, porque as pessoas não sabem lidar com seu tamanho. Então, ela quis ser um elefante, e não pensar tanto, nem tão de pressa. Ela quis, como de costume, ser outra coisa. Mas também era bom ser quem era, e poder olhar as flores distraidamente atenta. Havia um flor azul. E rara. Elas conversaram um pouco e Alice descobriu que era apenas o reflexo do céu. Que na verdade aquela flor não tinha cor. Era apenas um espelho que durante as noites, ficava de um azul tão profundo e denso que parecia negro. Mas ainda era brilhante. E ela se deu conta de que, ser uma criatura tão reluzente assim, pode dar muito trabalho, e causar muita confusão. No momento em que pensava sobre essa confusão passou o coelho. Como de costume, sempre naquele horário de pensar sobre as confusões, o coelho passa. Como de costume, ela seguiu o coelho. Ela não vê mal em seguir o coelho... mas parece que isso não é muito costume por aqui. E caiu, naquele buraco, como de costume. Cair no buraco não é um problema, ela pensou, afinal, não é nele que mora a aventura?
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