Ela havia caminhado muito e finalmente chegara ao pé da grande rocha. Tinha passado tanto tempo vendo aquela rocha de longe... Andando tanto... O suor lhe escorria no rosto e ela enchugou com a manga da camisa. Olhou para cima e lá estava ela, magestosa: a grande! Ela sentia-se aliviada por ter conseguido chegar, mas, ao mesmo tempo, ia crescendo dentro de si um medo muito grande. Ela desejara tanto estar ali, agora só precisava subir. Preparou o equipamento. Secou as mãos que suavam frio... pozinho branco, corda de segurança, pinos, ganchos, mosquetões, sapatilhas, coragem. Tudo ali... Ela tocou na rocha e subitamente senti-se acolhida. Pareceu-lhe que a montanha a abraçara e lhe sussurrasse: está tudo bem, eu estou aqui e está tudo bem, pode começar! Seu coração saltava dentro do peito, como quando era ginasta nas praticas de solo. Ela respirou fundo 3 vezes, sabia que quando começasse não teria mais volta. Esticou o braço direito - ela é destra - e com o dedo do meio e o indicador sentiu seu primeiro ponto de apoio. Apoiou o pé esquerdo numa saliência mais baixa e deu o primeiro impulso. A rocha, apesar de rocha, era leve, macia... Ela tinha uma sensação muito nítida de que a conhecia bem. Havia estudado muito aquele lugar, fizera pesquisas, análises, planos, mas quando começou a subir parecia que nada daquilo que pensara anteriormente era necessário. Elas eram só sensação. Apenas as duas naquele mundo inteiro. Ela subia lentamente, respirando fundo e sentindo a brisa que batia na rocha e rebotava de volta para a imensidão às suas costas. Sentia uma leve memória de dor, mas compreendia que aquele já era passado, ela havia treinado muito e seu ombro direito já estava curado. Estica, tateia, encontra, firma, puxa, empurra. Um metro a mais. A cada alçada de braço, ela se sentia mais forte, mais segura e mais livre. Deixava cair pelo penhasco pó e memória. Parou para respirar, assegurou-se da firmeza do pino e relaxou os braços. Aquela rota era muito antiga e lhe parecia que fazia tempo que a última escalada bem sucedida havia sido feita. Ela olhou para trás. E uma lufada de vento lhe bateu na alma como um soco no estômago. Sua respiração acelerou e ela sentiu seu rosto suado escorrendo. Estava chorando sem nem mesmo mover um músculo. Sentiu que aquela visão tão imensa, do caminho que havia percorrido, era extremamente opressora e bela. Como era possível sentir algo tão bom é tão ruim ao mesmo tempo, por uma mesma visão? Sentiu o tempo voltar, e pisou novamente naquele solo pela primeira vez. Sentiu todo aquele caminho novamente, mas não estava triste. Aquele choro e aquela sensação de que o tempo era paralelo e que podia reviver tudo que andou, não eram ruim. Estranhamente ela se sentia aliviada. Não sabemos quanto tempo durou aquela pausa. Ela podia se lembrar detalhadamente de cada momento da jornada, e enfim o choro parou. E ela pode novamente sentir o abraço da rocha. Elas já era um coisa só. Ela sentiu-se acolhida de novo. Virou-se e olhou para cima, esticou o braço mais uma vez, sabia que a subida era longa, e só dela, mas não se sentia só. Sentia-se tão forte que a coragem se multiplicava a cada fenda, a cada centímetro, a cada sopro de vento. Ouvia o barulho das aves e o cheiro da rocha. Imensa... profunda, amorosa! Sorriu aliviada, a subida era muito dura, mas aquele cheiro era muito familiar. Sabia que ao esticar novamente o braço, a cura se consolidaria no peito, a rota nunca seria mais fácil, mas nunca mais ela estaria só, porque a coragem seria parte de sua musculatura dali em diante.
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