sexta-feira, 13 de abril de 2018

Sexta-feira 13

Ela vem, que é sexta, né? Nas sextas ela sempre vem. Lavo a louça e ela fica em silêncio como de costume. Eu pego a cerveja e ofereço, ela aceita. Por sorte hoje tenho duas, ela ri. Nos sentamos como de costume, e ela me olha má, como de costume. Mas me acolhe. Não sei como pode haver acolhimento em tanta maldade. O silêncio é rompido por uma mensagem no celular, um cara qualquer, ela ri. Ela não se importa. Respondo. Recebo mais uma ou duas mensagens, ela continua aqui. Ela está quase sempre aqui nas sextas. A cerveja, desce lenta, não pode tomar rápido, só tenho essa. Ela sabe. Seus olhos são grandes e venenosos. E profundos. São duas janelas para a resposta do universo. Ela sabe. Eu sei e a observo. Ela apaga meia duzia de luzes, e se senta novamente, e tudo é ainda mais melancólico. Ela sabe ser melancólica. Mas é sempre ela que me acolhe. A casa é grande e fria. Eu me agasalho e começo a não me importar que a cerveja esquente. Mas sigo bebendo lentamente, para que não acabe logo. Quando acaba fico sem assunto. Ela sempre está sem assunto, sou eu que me importo em manter um fluxo de raciocínio, para ela tanto faz. Ela está sempre plena. Vazia. Eu preciso preencher tudo isso. A mensagem toca, é um alivio. Eu coloco música e mudo de lugar. Ela me acompanha muito lentamente. Como ela é má. Me encara, eu fujo. Mas é tanta presença, infujível! Começa uma nova canção que aquece meu coração. Só quando meu coração se aquece ela se incomoda. Decido que é hora dela partir, já tenho minha canção. Ela não se aborrece, ela volta toda sexta, nas noites. Não sei se semana que vem terei cerveja para nós duas.  

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